Morrer de Amor
A verdade é que a gente sempre acha
que, depois de um estrondo, aquele zumbido no ouvido nunca vai passar. Mas
passa. Quando menos esperamos, acaba. Nenhum dano pode ser tão permanente assim
na vida. A única morte que mata é a dos órgãos. De todas as outras - de amor,
de medo ou de dor - a gente revive na manhã seguinte. É certo que o sol pode
demorar a raiar, de semanas a décadas, mas que a lua sempre dará lugar a ele,
uma hora ou outra, todo mundo está cansado de saber. A verdade é que existe
sempre um outro alguém por quem vale à pena escrever uma prosa e um outro
sorriso pelo qual vale à pena sorrir. A gente sai de um quarto escuro achando
que a visão será para sempre manchada, mas não. Não se sai intacto de um baque,
mas se sai vivo. E cada resto de vida, ainda é vida.
Apesar dos danos, das deficiências
e dos pedacinhos que a gente vai deixando pelo caminho, existe sempre uma
prótese para consertar. Porque morrer a gente morre todo dia, se não for de dor
de dente, é de dor de cotovelo. Mas e daí? Quem é que sabe de quantos epitáfios
toda uma vida é feita? A verdade é que a cada dia que a gente acha que morre e
encontra uma frase perfeita para um discurso póstumo, a gente renasce e
descobre que, não, não é para tanto. A gente renasce e descobre que ainda estamos
distantes do fim. E talvez a gente morra na manhã seguinte de novo: se não for
de medo, é de fome. E, no entanto, tudo segue intacto no restante do universo.
Cabe a nós descobrir os outros sonhos para sonhar, outros caminhos a seguir e
outros amores para amar. A verdade é que a gente sempre acha que vai morrer de
amor, mas, na verdade, é disso que a gente vive.




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ResponderExcluirexatamente!
ResponderExcluirÉ desse jeito rs... Acordamos e descobrimos que estamos longe do fim... Sempre há como recomeçar...
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