Borboletas no Estômago
Já era tardezinha quando Mário, um jovem colunista de
um jornal local, estava saindo do trabalho em direção à farmácia a fim comprar um remédio para enxaqueca
e outro para insônia. O tempo fechado ameaçava uma chuva daquelas de matar
peixe afogado. Mário entrou no carro e seguiu seu destino.
A chuva caiu e o trânsito ficou um pouco conturbado.
Os para-brisas do carro de Mário não funcionavam direito e o ar-condicionado há
tempos não gelava. Como consequência da chuva o vidro da frente embaçava e
Mário tinha que ficar limpando com as mãos, desfocando assim do trânsito
caótico da grande São Paulo. Já não bastando a dificuldade para enxergar os
carros à sua frente em virtude do vidro embaçado e dos para-brisas estragados,
Mário ultrapassa o sinal vermelho sem perceber e acaba batendo em outro carro. Nada
de grave acontece, pelo menos não com ele por enquanto.
Ele desce do carro para ver se alguém se machucou. Sem
nenhum guarda-chuva, sua única proteção é a mão sobre os olhos e antes mesmo de
dizer alguma palavra, Catarina desce do carro furiosa. Ela estava atrasada para
o casamento de uma amiga e aquela não era uma boa hora para um acidente, ainda
mais com tanta chuva.
Catarina falava dramática e incontrolavelmente,
descarregou toda sua raiva em Mário, este parecia estar em outro mundo. É que
aqueles cabelos bagunçados pela chuva, aquela maquiagem borrada e aquele
vestido triunfante encharcado mantiveram-no hipnotizado. Catarina percebendo
que era irrelevante discutir, finalmente se calou. Depois de demoradas trocas
de olhares, Mário pergunta:
– Está tudo bem com você?! Espero que sim.
Catarina responde:
– Você é cego ou não sabe dirigir?
Mário hesita timidamente em retrucar e diz que irá
arcar com todo o conserto do carro de Catarina. Eles trocam telefones e combinam
a data levarem os carros numa oficina. Catarina entra no carro e olha para seu
vestido com o cenho franzido, logo após direciona seu olhar para o espelho
retrovisor e percebe que se não chegar a tempo ao local do casamento irá atrair
olhares de todos os tipos, menos de admiração. Mário por sua vez, dá uma
olhadela no pequeno estrago na lateral de seu carro e ignora todos os fatos
assim que se senta no banco do motorista novamente. “Carlos vai dar um jeito nisso para mim!” Ele pensa. E vai à
farmácia comprar os remédios que tanto precisa.
Na pequena chácara onde o casamento irá ocorrer,
Catarina chega às pressas e vai correndo ao quarto das convidadas. Tira toda a
roupa molhada desce até à lavanderia onde as coloca na secadora e aperta o
botão de secagem rápida. Volta para o quarto, onde com a ajuda de algumas
amigas fica mais que deslumbrante. Quando vai ao banheiro contornar mais uma
vez os olhos com lápis de olho, pensa naquele estranho calado ouvindo-a
esbravejar sem nem levantar uma sobrancelha em discordância. Aqueles olhos
castanhos piscando para impedir os pingos de água entrar, a camisa molhada, o
semblante calmo apesar do acidente faz algo dentro dela se mexer e a deixa
inquieta. Troca de roupa e desce a fim de apreciar a união matrimonial de sua
amiga, mas em boa parte do tempo quando seu estômago remexe seus pensamentos
são roubados pelo rapaz da chuva.
Mário chega em casa, liga a televisão e vai até a
cozinha preparar macarrão com queijo. Aqueles cabelos bagunçados pela chuva,
aquela maquiagem borrada e aquele vestido triunfante encharcado roubam seus
pensamentos por boa parte da noite fazendo que o macarrão grude na panela e não
o deixa prestar a devida atenção ao filme. Algo dentro dele se mexe, algo
talvez antes já sentido, mas da mesma forma que o filme, retivera pouca
atenção. Mário pega o celular e olha para o contato da garota exaltada em plena
chuva, tenta apertar o botão de ligar, mas acaba desistindo. “Melhor eu ir dormir.” Ele pensa quando
vê que o relógio marcando 0h. O rapaz da chuva se deita com o intuito de
descansar para o longo dia de trabalho que virá, mas em muitos momentos antes
de adormecer quando seu estômago remexe seus pensamentos são roubados pela
garota da chuva.
No dia combinado, um domingo nublado em que Carlos
abriu sua oficina apenas para atender seu amigo e a garota da chuva, Mário e
Catarina chegam ao mesmo tempo ao local. O garoto da chuva vê a moça com um
vestido coral destacando seu tom de pele colocando o carro no lugar para o
conserto e desce do carro a fim de cumprimenta-la. Algo dentro dele se mexe ao
se aproximar.
– Catarina? – Ele a chama.
Algo dentro dela se mexe. Catarina passa a mão em uma
mexa do cabelo depois de fitar o olhar do garoto da chuva. A camisa justa
branca deixando em evidência seu peitoral como no dia do acidente na rodovia.
– Mário! – Ela sorri.
Mário a convida para comer alguma coisa enquanto
Carlos faz seu trabalho. Ela aceita, sentindo seu estômago remexer de vez em
quando. Eles falam sobre o acidente sentados em uma cafeteria local, sobre o
casamento da amiga, os dias que se passaram e vez ou outra ambos sentem as
borboletas em seus respectivos estômagos mexerem e remexerem, até não dar mais
tréguas. Algo dentro deles, que antes fora brotado naquela chuva começa a
florescer e, apesar do modo como se conheceram, o garoto e a garota da chuva
dão as mãos em sinal de aceitação do reboliço das borboletas de seus estômagos.
Texto por Anna Izabelle e Eduardo Pires



As borboletas se mexeram em meu estômago lendo este texto, amei o texto. Compartilho coisas boas. Parabéns!
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