Eles



Ela acordou por volta das oito da manhã sentindo o vento frio que o ventilador fazia em sua pele. Coçou os olhos, ajeitou os cabelos desalinhados e finalmente se sentou com o olhar ainda pesado de sono. Ouviu o som de pingos caindo no chão e ao olhar para a janela à sua frente sentiu-se animada com o clima que o dia prometia. Sempre apreciou dias nublados em que uma xícara de chá era bem-vinda e quando a leitura de um livro tornava tudo melhor. Levantou-se animada já planejando inúmeros projetos para os momentos que se seguiriam.

Tomou um banho demorado, lavou bem os cabelos já que os mesmos eram oleosos e precisavam desse cuidado quase sempre. Escovou os dentes e depois ficou a olhar seu próprio reflexo no espelho do banheiro, vez ou outra fazendo algumas caretas para analisar a elasticidade de sua pele jovial. Vestiu uma calça de sua antiga escola que valorizava suas pernas não muito grossas e uma blusa mais solta com o intuito de sentir-se livre. Tomou sua esperada xícara de chá com alguns cookies da marca Toddy. Já passavam das nove quando ela finalmente sentou-se em sua escrivaninha naquela bela manhã de domingo e continuou a escrever um dos livros que estava trabalhando.

Lembrou-se então que poderia haver episódios de seus seriados preferidos que ainda não tinha assistido e dedicou certo tempo a busca-los no Google. Assistiu The Flash, The big bang theory, Grey’s Anatomy, Sherlock e Modern Family. Como a maioria não possuía um período demasiado de duração, antes do meio-dia pôde fazer seu almoço e degusta-lo por alguns momentos. Depois das quatorze da tarde entrou em seu perfil do facebook e contatou que a maioria dos seus amigos estavam namorando, felizes e entusiasmados em seus respectivos relacionamentos. Ficou feliz por eles. De verdade. Entretanto, sentiu-se estranha, não conseguiu entender o que se passava em sua cabeça por alguns instantes até que em poucos segundos, ao ver a foto de um rapaz que há tempos roubava seus pensamentos ao lado de sua namorada. Deu um meio sorriso. Curtiu a foto juntamente com outras seis pessoas, depois terminou de assistir o episódio mais demorado de Sherlock.

Ao voltar ao trabalho já olhando para a pilha de livros da faculdade que deveria enterrar a cabeça sem nem pensar duas vezes concluiu que por mais incrível que parecesse, ela estava normal, estava serena. Não, não estava desesperada para estar em um relacionamento como a grande maioria de seus amigos e isso a fez mais feliz do que antes quando não entendia o que realmente se passava por sua cabeça. Ela entendeu que por mais maravilhoso que seja estar ao lado de alguém que amamos, não adianta apressarmo-nos para que tais fatores ocorram de forma mais rápida, podemos até mesmo estragar ou complicar o que deveria estar em bom estado de funcionamento ou ser simplesmente descomplicado.

Ela percebeu que apesar das pessoas olharem para ela com pena por ter dezoito anos e nunca ter tido nenhum namorado por muito tempo, que tais especulações ou ideias sem fundamento apropriado, que estava feliz, que estava mais do que nunca completa. E estava completa não por estar com a sua metade da laranja, mas por aceitar seu eu incondicionalmente e ser feliz com a bagunça que ela mesma fazia dentro de si quando não estava a fim de ser organizada em um dia qualquer.

As horas se passaram... os dias se passaram e, meses depois ao estar sentada na sala de aula da faculdade tentando entender o que o professor falava acerca da escola literária arcadista, olhou para o lado e percebeu um olhar diferente na sua direção, possivelmente um dos alunos transferidos. Recompôs-se sentindo seu rosto corar, segundos depois desviou seu olhar para os olhos castanhos que a fizeram enrubescer e o viu sorrir para ela. Sem ter muita prática com flertes, ainda mais em um espaço acadêmico, sorriu de lábios selado para ele tentando parecer a mais encantadora possível. A aula de literatura brasileira deu uma pausa e enquanto o professor estava fora, ela escrevia seu nome nas bordas do caderno. Escutou então, uma cadeira sendo arrastada e quando notou o que acontecia, o rapaz de olhos castanhos já estava sentado ao seu lado.

Eles conversaram sobre literatura, mas depois ele começou a falar de carros e futebol. Surpreendendo-o ela disse o pouco que sabia dos assuntos e ele a instigou em outros querendo saber até onde ia seus conhecimentos. Eles comeram uma pizza no restaurante em frente à faculdade acompanhado de suco de laranja para ela e uma coca para ele. Ela falou do mal que o refrigerante faz à saúde e ele pouco se importou ao pedir mais uma lata do produto. Ele a levou em casa naquela noite e deu um beijo na testa dela de boa noite. No dia seguinte eles se viram na faculdade e marcaram um encontro no cinema para o domingo.

No domingo ela pensou em desmarcar o encontro e ficar em casa escrevendo, assistindo suas séries preferidas, tomando chá, pois o clima estava nublado. E, em dias como esses em especial, ela gostava da própria companhia. Mas decidiu colocar um vestido floral e um suéter verde. Ele se atrasou quinze minutos, mas se desculpou alegando que estava fazendo coisas para a sua mãe. Ela fingiu acreditar, mas pouco se importou com tal fator. Eles foram ao cinema e compraram dois baldes de pipoca e sucos naturais. Ela olhou surpresa para ele ao ver o suco nas mãos do rapaz de olhos castanhos e deu um sorriso. Ele deu de ombros sorrindo e a envolveu nos braços. Entraram na sala de filme, colocaram os óculos 3D, sorrindo loucamente quando uma situação da obra cinematográfica pedia gargalhadas.

Eles se aproximaram mais com o passar dos dias. Eles se formaram alguns meses depois. Ele lançou livros, tornou-se editor, ela deu aulas em escolas, universidades e lançou livros da mesma forma. Eles se aproximavam com o passar dos dias, dos meses, dos anos e, ela se sentia feliz, na verdade, ela sentia-se mais feliz do que era antes. Ela aprendeu a dividir seus domingos nublados com o rapaz de olhos castanhos que a levou ao altar, depois dividiu os afazeres domésticos, por fim, dividiram a criação de duas crianças, dois cachorros e um gato.

Ela ainda tinha alguns dias apenas seus, mas não podia negar que ao ver o rapaz de olhos castanhos chegando, algo dentro dela a fazia ficar diferente. E era um diferente bom, um diferente que a deixava cada vez melhor. Ela podia viver sentindo aquilo, ela queria viver sentindo aquilo e viveu. Fez o uso máximo desse sentimento que apenas aumentava com o passar do tempo e foi incondicionalmente feliz tanto nos domingos nublados sozinha, bem como nos domingos nublado em que ela e ele ficavam abraçados assistindo um filme na cama no meio das crianças, cachorros e gatos.



Anna Izabelle                        

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