Era o tipo de flor que se acha em qualquer lugar
Ele não a conhecia; ela era amiga de sua amiga. Estavam ali, sentados sobre a sombra daquela árvore. Passaram a maior parte da tarde conversando banalidades e, talvez, alguns minutos sobre coisas não tão banais. Ela precisava de ajuda com alguns cálculos; coisas de faculdade, ou algo desse tipo. Ele era bom nessas coisas, era prático, mas mesmo que não fosse era capaz de aprender tudo e ainda defender uma tese de mestrado por aquela desconhecida; ela era linda.
Tinha olhos castanhos, tão claros que às vezes tomavam tons de amarelo; tinha a pele clara e os cabelos presos num coque desleixado. Já há algum tempo que ele havia se perdido na conversa e se achado nos contornos do rosto dela e nas covinhas que ela criava ao sorrir. É bem provável que ele ficasse ali, imóvel muito mais tempo. Todo o tempo. Mas ela disse uma
coisa que o despertou.
– Não. Nunca. Nunca ganhei uma flor.
– Nunca? Mas você namorou tanto tempo com aquele cara. E todos que te conhecem se apaixonam – disse à amiga do nosso querido desconhecido.
– Sim. Namoramos um tempo – ela disse num dar de ombros, descontraído – mas não havia muito disso. Ele não era muito do tipo de fazer declarações. E os outros caras foram apenas
outros caras.
Ele notou a expressão de desaprovação e chacota da amiga, porque, escondeu o rosto com as mãos, num gesto de constrangimento fingido. Mas logo depois fechou a cara e disse:
– Mas e daí?! Nem todas as mulheres do mundo receberam flores, ou bombons, ou declarações de amor e não foram menos mulheres do que as que receberam; nem menos apaixonadas, ou felizes ou sei lá! – e parou sem concluir o argumento percebendo a bobeira da discussão e riu.
Eles continuaram a conversar por mais algumas horas e riram quase o tempo todo. Ele as acompanhava com alguns comentários soltos e com vários sorrisos e risos sinceros. Quase no pôr do sol eles se despediram e tomaram seus caminhos. Ele combinou um horário no outro dia para encontrar-se com ela e ajudá-la com os cálculos.
Ele pensou nela no caminho para casa. No que ela disse. Ele não estava apaixonado, não. Apenas encantado. Ela era incrível e ele não tinha vaidade alguma em admitir, que os pensamentos dela
deviam manter-se em homens muito diferentes dele. Ele pensou nela no caminho para casa, mas não como a maioria pensaria. Ele pensou no que ela disse. Ele não tinha pretensões e nem formulou planos. Ele não se imaginou com ela. Ele não estava apaixonado, não. Apenas deixou seus pensamentos vagarem, com mesma naturalidade com que o vento traça o caminho das folhas.
No outro dia, pouco antes da hora de encontrar-se com ela, ele comprou uma flor. Não era a flor mais cara e nem de longe a mais bonita. Era uma flor simples, bela e suave. O tipo de flor que
se acha em qualquer lugar, o tipo de flor que nasce na beira da estrada, e que é pisada sem nem ser vista. Mas ainda sim, bela.
Eles estudaram à tarde quase toda. Ela notou nele coisas que não havia notado na tarde anterior; seu humor delicado, sua gentileza polida, sua paixão infantil por coisas simples e belas, sua naturalidade e sua falta de preocupações pelas coisas impossíveis. Ela aprendeu com ele aquela tarde; ela sorriu com ele aquela tarde; ela sorriu dele aquela tarde.
Eles se despediram com um abraço. E entraram na noite em busca de suas casas. No caminho ela pensou nele. Pensou nas coisas que ele disse. Ela não estava apaixonada, com certeza não. Mas ela pensou nele no caminho de casa. Ele era jovem, e, no entanto possuía uma alma gentil e bela. Ele não vivia de convenções e se apaixonava pelas coisas que valiam a pena com a selvageria de um leopardo. Ele era um tipo raro. E ela pensou nisso antes de chegar em casa. Na porta de casa, ela enfiou a mão na bolsa para pegar a chave, então parou por um instante. Ela tocou em algo estranho. Algo alheio. E apesar da curiosidade esperou para ver o que era depois de entrar em casa.
Lá dentro. Sob a luz, ela tirou da bolsa uma flor e um bilhete. A flor, não era a mais bonita que ela já tinha visto, não era extravagante e seu cheiro não tomou o cômodo, mas ainda sim era
uma flor simples, bela e suave. O tipo de flor que se acha em qualquer lugar, o tipo de flor que nasce na beira da estrada, e que é pisada sem nem ser vista. Mas ainda sim, bela. O bilhete era
simples e seus dizeres lacônicos “não é certo uma mulher dizer que nunca ganhou uma flor...”. Ele era novo, mas dono de uma alma antiquada, ultrapassada, vanguardista. Dava flores e escrevia cartas. Abria a porta do carro e convidava para jantar. Oferecia o casaco, dava o braço ao caminhar. Levava escondido consigo um guarda-chuva, apenas para dá-lo para a primeira menina que precisasse, quando começasse a pingar. E acima tudo ele preocupava-se em fazer uma mulher o mais feliz que fosse capaz. Mas ele aprendeu a não esperar grande encanto por conta de seus gestos. Apaixonar-se dessa maneira exige tempo e a maioria das mulheres que ele
conhecia não tinha tempo para amores assim.
Bem, mas essa teve.
Ele chegou em casa e recebeu uma ligação. No outro dia teve companhia no almoço. Na semana seguinte teve com quem passear no parque. Viram filmes, algumas vezes no cinema, algumas vezes em casa.
Numa noite qualquer dessas, ele dormiu na casa dela, e pela manhã quando foi pegar uma camisa na gaveta, encontrou uma flor seca e escondida. Não era a flor mais linda do mundo; estava sem cor e com algumas pétalas faltando. Era uma flor simples, bela e suave. O tipo de flor que se acha em qualquer lugar, o tipo de flor que nasce na beira da estrada, e que é pisada sem nem ser vista. Mas ainda sim, bela.
O amor às vezes é simples. Simples, belo e suave. Não é o tipo de amor que se vê nos filmes, o tipo de amor que se lê nos romances, às vezes ele não é o tipo de amor que se imagina quando criança. Mas ainda sim é belo.
Texto por Alesi Mendes



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