A garota de sutiã azul marinho


Era uma noite de quarta quando eu estava sentado com alguns amigos na lanchonete perto de minha casa, onde trabalho para descolar uma grana e ajudar com as parcelas da faculdade; falávamos sobre futebol quando notei algo singular. Ao analisar ao certo o que via pensei se eu faria o mesmo. Não por necessidade, mas por realmente querer. Ela vestia um shorts preto e uma blusa com estampas, seu cabelo estava preso e nas costas podia-se ver as alças do sutiã azul marinho que com certeza fechava-se pela frente, permitindo observar um pequeno laço cor de rosa onde as mesmas se juntavam. Não tinha cabelo tão cumprido, como geralmente aprecio, era médio, e balançava mesmo sem brisa. Era perceptível que ela não se importava se se encontrava ou não sensual ou querendo atenção para si. Mesmo ao longe vi que a mesma não usava maquiagem, estava natural, e isso foi outra coisa que me chamou atenção. Me levantei para atender minha nova freguesa. Peguei um cardápio no balcão e levei até a mesa em que ela se sentou.

            – Boa noite! – Eu disse entregando o cardápio.

            – Boa noite! – Ela respondeu com um meio sorriso e pegou o objeto de minha mão.

            Me afastei por alguns segundos e pelo canto do olho a via virando o cardápio de todas as formas possíveis tentando decidir o que pediria. Logo ela me procurou ao redor e me aproximei novamente para saber o que ela iria querer.

            – Pois não?

            – Eu vou querer um X-Especial sem presunto e abacaxi. – Ela respondeu com a voz doce.

            – X-Especial sem presunto e abacaxi... Okay, algo mais?

            – Só isso mesmo, obrigada!

            – Okay!

            Devido ao pouco movimento no recinto, entrei para a cozinha da lanchonete e eu mesmo fui preparar o pedido da garota de sutiã azul marinho. Enquanto separava o pão, o hambúrguer e os demais ingredientes para o lanche que fazia, me perguntei porque uma garota bonita como ela estava sozinha a uma lanchonete, sendo que poderia estar muito bem acompanhada. Todos que se encontravam lá estavam ou em casal ou em grupos de amigos, ela não. Olhei-a de relance e a vi olhando para o céu, depois abaixou os olhos para algo que estava em suas mãos, e pela luz que emanava deduzi que se tratava de um aparelho celular. Seus olhos castanhos dançavam de um lado para o outro enquanto deslizava o dedo sob a tela. Minutos depois levei o pedido para a mesa.

            – Quer beber alguma coisa?

            – Quanto é o refrigerante de latinha?

            – $ 3,50.

            – Não dá para fazer por $ 3,00 reais? – Ela fitou meus olhos pela primeira vez, sorrindo e mexendo a sobrancelha direita.

            – A gente pode dar um jeito... – Sorri entendendo que ela estava flertando para conseguir um desconto.

            – Então eu quero um. – Ela disse. – Quais são os que tem?

            – Coca-Cola, Pepsi e Guaraná Kuat.

            – Guaraná?

            – Sim, o Kuat.

            – Pode ser, pode ser!

            Peguei o refrigerante juntamente com um canudo e levei até a mesa e a vi me olhando de relance e apertando os olhos ligeiramente com um dos cantos da boca se movendo, como se ela estivesse agradecendo apenas com a expressão facial. Logo depois trouxe para a mesma dois recipientes onde continha ketchup e maionese temperada, no entanto, dessa vez ela não me fitou. Estava ocupada olhando para a comida em suas mãos, talvez pensando por onde iria começar a comer. Disfarçando muito bem, capturei o momento em que ela dava as primeiras mordidas e lambuzava os cantos da boca com o ketchup. Ela passou as mãos para limpar, pouco se importando se alguém estava ou não olhando seus feitos.

Tive que descascar laranjas e preparar outros lanches das pessoas que chegavam ao local e a última vez que captei o olhar daquela garota de sutiã azul marinho foi quando ela se levantou para pagar a conta e o dono da lanchonete estava no caixa. Terminei o que fazia e fiquei ao seu lado. O dono do lugar onde trabalho não sabia do desconto de 0,50 centavos que eu havia dado para aquela garota, mas ao fazer as contas também não se importou com a pequena quantia. Ela entregou o dinheiro a ele e trocamos um olhar seguido de um leve sorriso. Observei-a se afastando e em certo ponto olhou novamente para o céu, a lua estava realmente magnífica naquela noite, não é de admirar que a garota de sutiã azul marinho não tenha notado sua exuberância. Não sei nada sobre ela, onde mora, sua cor preferida, nem mesmo seu nome, entretanto aquela garota me cativou. Não estou dizendo que quero me casar com ela, ter três filhos e cinco cachorros, mas ela me atraiu de maneira singular, como disse no início de minha narrativa.

Muitas vezes fazemos questão de estarmos com alguém ou de termos sempre alguém por perto como se tivéssemos medo de nós mesmos. Ela não. A garota de sutiã azul marinho parecia confortável consigo mesma, parecia à vontade com sua própria companhia. Não precisava de uma amiga ou namorado ao seu lado para mostrar seu valor ou mesmo para deixa-la completa. Era perceptível que por si só, ela se completava, ela se auto satisfazia. Creio que precisamos passar mais tempo com nós mesmos; descobrirmo-nos, redescobrirmo-nos e assim, sermos realmente felizes, completos. Parar de pensar que apenas com alguém ao meu lado sou melhor, sou feliz, sou mais.

A garota de sutiã azul marinho, se encantou com aquela lua, comeu um X-Especial sem presunto e abacaxi com refrigerante e depois se foi, talvez eu nunca mais volte a vê-la, ou se algum dia topar com ela na rua talvez nossos olhares não se encontrem nem sorrisos serão esboçados. Mas não posso negar que naquelas trocas de olhares sem segundas intenções e no período que passamos juntos no mesmo estabelecimento, foram importantes, não posso negar que ela me fascinou. Primeiro com as alças de seu sutiã à mostra, depois com a harmonia que tinha com ela mesma. Aquela paz, aquele amor próprio, aquele equilíbrio, aqueles olhos castanhos e aquele sutiã azul marinho... Pretendo nunca mais esquecer, mesmo que nossa ‘relação’ se resuma apenas a anotar pedidos e despedirmo-nos por meio de sorrisos e acenos de cabeças.





Anna Izabelle

Comentários

  1. Adorei seu conto, Anna Izabelle! Também escrevo. Se tiver Facebook e quiser conhecer minha página de poesias, (já com 40.200 curtidas) ficarei imensamente feliz. Sucesso para seu livro já editado e para os dois a caminho. Um abraço. http://www.facebook.com/VerluciAlmeidaPoesias

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