Cativar
– Pare de me olhar quando estou dormindo! – Ela diz
ainda com os olhos fechados.
– Como você sabe que estou te olhando, posso estar
olhando o chão ao invés de você!
Ela abre os olhos e joga o travesseiro no rosto de
Raphael e ambos brincam de briga de travesseiros. Quando finalmente cessam o
que estavam a fazer se beijam profundamente e se entregam um ao outro, momentos
depois.
No final da tarde quando ele chega do trabalho e ela da
faculdade sentam-se na porta do lugar que decidiram chamar de lar com um copo
de tereré e observam o sol se pôr por trás das árvores da casa vizinha.
Eles não são um casal hollywoodiano, se alguém passar
por eles na rua não irão encontrar nada de muito diferente, apenas duas pessoas
normais. Mas apesar de serem como qualquer outra pessoa na rua para terceiros,
para os dois eles são diferentes. Se ela não fosse diferente aos seus olhos,
Raphael não teria aberto mão de algumas coisas para vê-la feliz. Se ela não
fosse diferente aos seus olhos, Raphael não acordaria antes com o intuito de
vê-la respirando profundamente ao dormir e observar ainda o desenho de seu
corpo embaixo do lençol. Se ela não tivesse a pitada de paranoia que tem, ele
não teria olhado para ela como olhou.
Da mesma forma, se Raphael não fosse diferente ela não
teria aceito seu nervoso pedido para matrimônio; não teria prazer em assistir
filmes de ficção científica em pleno sábado à noite enquanto poderia estar
dançando com a galera em uma boate. Se ele não fosse diferente dos demais caras, ela estaria com qualquer outro e
ele com qualquer outra. Se houve química quando os olhares foram trocados pela
primeira vez, é difícil saber, mas creio que o fator de maior relevância foi a
aceitação do outro.
Ela nunca havia amado alguém nesse sentido até conhecer
Raphael, na verdade, acho que ela nunca havia nem mesmo gostado de alguém.
Raphael já tinha experiências a mais, no entanto, pelo entender de ambos estava
se deixando ser abraçado pelo sentimento que ela fizera brotar em seu peito,
quando nem ele pensava que poderia acontecer novamente. Eles se aceitaram da
mesma forma que se conheceram, bem como os defeitos que tempos depois saíram da
zona de mistério.
Essa é a verdadeira arte de cativar. É criar laços
eternos, mesmo se a convivência for efêmera e quando não for saber que o que
veio a cativar agora faz parte de você. Pelo resto de seus dias na terra. Quando
cativamos algo ou alguém nos tornamos responsáveis por aquele sentimento, por
aquela pessoa. Não é necessário viver cenas de filmes, mas sim cenas simples e cotidianas
sabendo realmente aproveitá-las com a astúcia devida.
Anna Izabelle




Muito bom. Parabéns. ♡
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