Desabafo de Autora


Quem pensa muito no assunto ou quem gosta de estar no meio dos livros, é comum imaginar em como seu autor ou alguém possa escrever, inventar uma história do zero e fazer grande sucesso com o que produziu. É realmente de se pensar que a pessoa é com certeza muito inteligente ou algo do tipo. Mas nada disso é real. Muitas vezes quem escreve apenas faz o que faz, analisando o público-alvo e o assunto que mais vai dar dinheiro. Eles fazem o melhor possível para ganhar em cima daquilo que produzem e conseguem, é de tirar o chapéu.

Mas há o outro lado da moeda, os que escrevem por prazer esperando um dia serem reconhecidos por escrevem o que são e o que sentem. Que não escrevem apenas pensando em lucros ou fama, mas para fazer sua própria vida valer a pena e tocar outras com o que coloca no papel. Esses, têm bloqueio de escrita, choram e sorriem com seus personagens. Sofrem quando tem que matar alguém da história que não deveria morrer, mas que para a história seguir foi necessário. Ficam depressivos devido a tudo isso e as pessoas mais chegadas a esses autores não conseguem entender ao certo o que se passa.

Esses escritores tem uma característica que os que escrevem apenas por dinheiro nunca terão, ou se tiveram, perderam com o passar do tempo e após ter adquirido a fama que sempre sonharam. E essa característica é a ENTREGA. Eles se entregam não apenas a um personagem, mas a todos eles, porque cada um precisa de uma entrega especial. Os verdadeiros autores, antes de querer tocar a vida de outras pessoas com aquilo que produziram, buscam tocar a si mesmos.

Não vou negar que queremos ser reconhecidos pelo que escrevemos, que ainda desejamos ser entrevistados pela Fátima Bernardes no Encontro ou tomar um café da manhã com a Ana Maria Braga, viajar o mundo com as obras concluídas, palestrando em várias línguas sobre o que se dedicou a vida inteira. Tudo isso é desejável por qualquer autor que pense racionalmente. Até porque o que queremos mesmo é viver da escrita e não ter que ser dois ou mais profissionais diferentes para sustentar a família, a si mesmo e ainda fazer o que gosta. No mundo capitalista em que vivemos precisamos do din din para viver. E ainda almejamos que tudo aconteça de forma rápida, assim, pensamos que tudo o que fizemos realmente valeu a pena. Quando na realidade, é o contrário.

Quando isso se junta à falta de apoio de todos os lados que você possa imaginar, ficamos cansados e estagnados em um mesmo ponto. Nesse momentos, abrir o Word para ler o que já escreveu e tentar continuar a narrativa, é uma ideia de outro mundo. Preferimos nos concentrar em coisas mais palpáveis, como em um diploma acadêmico que pode proporcionar um futuro promissor. Mas também um profissional frustrado. Ou nos dedicamos no trabalho que temos em uma tentativa de esquecer nosso fracasso na escrita, porque assim é mais fácil. É bem mais fácil desistir, do que insistir. Ainda mais em algo que vemos que há poucas chances de dar certo se compararmos nosso trabalho ao de outros autores. O que jamais pode acontecer, devido ao fato de que cada ser humano ser único e produzir de forma singular.

A verdade é que, muitos de nós nos sentimos assim, mas poucos tem coragem. Isso mesmo. Imaginamos que coragem é apenas escalar uma montanha ou pegar um animal peçonhento nas mãos ou... sei lá (pense em algo corajoso para você). Mas não, coragem é também insistir naquilo que queremos, mesmo que não esteja dando certo. Confesso, estou sem esse tipo de coragem há certo tempo.

Em uma de minhas primeiras palestras, uma moça de aproximadamente 16 anos chegou perto de mim, me cumprimentou sorrindo e disse “Parabéns por dar a cara à tapa nesse ramo, creio que não é fácil!” Ela estava mais do que certa, não é nada fácil. Ainda mais com tudo o que mencionei. Se esse post estiver com cara de despedida, me desculpem. Talvez seja a última vez que estarei escrevendo para esse blog ou não. No presente momento só vejo saídas para desistir disso que tantos chamam apenas de hobby e não uma profissão, propriamente dito. Mas creio que isso faz parte da vida, da mesma forma que acredito que desistir não é o mais viável.

Hoje ao tentar escrever em um dos livros que estou trabalhando, não me senti empolgada ou entusiasmada como geralmente ficava. A história é complicada e já me deu muita dor de cabeça. Mas lembro que ao escrever, me sentir apenas de uma forma: COMPLETA! Sim, eu me senti inteira, sem nenhum pedaço faltando ou partes por remendar. Enquanto eu escrevia, não lembrava dos meus fracassos, não recordava do pouco apoio que tenho para seguir nessa carreira, apenas... escrevia. Eu estava onde eu queria, fazendo o que amo. Não foram os leitores que aguardam uma nova história, ou o anseio de ser mais considerada como escritora para minha família e amigos, somente eu mesma.

E isso – até o momento – é o que me faz estar segura da escolha que fiz e que tento manter. Mesmo tendo pouco tempo para esse trabalho e não ganhando quase nada pelo que faço. Exteriorizar o que está aqui dentro (cérebro ou coração, tanto faz, você escolhe) de tal maneira, vale mais, apesar dos fracassos, derrotas e vontade imensa de jogar tudo para o alto e fazer o que me dará segurança a longo prazo. O fato de eu estar completa, mesmo que por pouco tempo durante o dia ou em dias, é mais que valioso. E acredito com veemência, que todos nós deveríamos buscar o que nos faz completos (desde que não seja nada ilícito), até porque essa sensação cabe a todos, basta querer e dar a cara à tapa.



Anna Izabelle


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