Sob o mesmo poste
Eles já não combinavam mais. O relacionamento se
desgastara e não souberam contornar, ou não quiseram contornar. Eram jovens e
belos e tinham muita coisa para viverem e muitos outros amores por encontrarem.
Estavam tristes, afinal separar-se é triste. O homem não foi feito para
despedir-se, deve ser por isso que é tão difícil dizer adeus. No entanto
estavam decididos. Ele estava firme e de braços cruzados e mantinha uma
distância segura, logo ele que a tivera por anos a distância de um abraço.
Ela estava resolvida também, mas era frágil e
delicada, e não conseguia segurar o choro, uma solitária lágrima borrara a
maquiagem perto dos olhos. Ao longo dos anos eles haviam feito promessas e
juras, feito planos e elaborado projetos, mas a vida fluiu de um modo tão
imprevisível que eles agora se viam naquela ponte e sob a luz amarelada do
poste percebiam como seus planos foram frustrados, e como haviam fracassado na
tentativa de serem felizes.
Ele tomou coragem e rasgou o silêncio que havia se
formado e disse:
– Eu sinto muito – e foi sincero. Ele realmente
sentia. Queria ter sido um namorado melhor, queria que as coisas tivessem dado
certo.
– Eu sei, não precisa se desculpar – ela respondeu sem
o olhar nos olhos.
Fez-se, novamente, silêncio por mais alguns segundos,
até que ela foi à direção dele, abraça-o com delicadeza e disse entre lágrimas
e soluços:
– Eu amo você.
Desfez-se do abraço e sem olhar para trás foi embora.
E ele ficou sozinho sob a luz de lamparina do poste. Vestia uma camisa branca e
a gola agora estava manchada pela maquiagem da fugitiva. Ele a havia
presenteado com um perfume tempos atrás. Agora a camisa também tinha o cheiro e
a lembrança o fez cerrar os dentes. Ao fundo um músico de rua tocava seu violino,
era uma música desconhecida.
Ele balançou a cabeça e começou a ir embora. Pensava
em sua ex-namorada, pensava em tudo que viveram e pensava no que havia
acontecido ali. Soltou um xingamento silencioso e foi embora. Quase no fim da
ponte ainda era possível ouvir o violino. E ele pensava “essa é uma música
triste”.
O artista nem finalizara seu número, outro casal que
caminhava na ponte parou sob a luz do mesmo poste. Eles eram jovens e belos.
Ele parecia preocupado, parecia meio inseguro, temeroso. Mantinha os braços
cruzados e ficou a uma distância segura dela. Ela parecia frágil e delicada e
não conseguia conter o sorriso, e, aliás, era um lindo sorriso. Tinha cabelos
castanhos e longos que se mantinham espalhados sobre seus ombros. Tinha olhos
escuros e grandes e seu olhar era sereno e alegre. Parecia viver em outro
mundo, parecia ser de outro mundo, parecia um anjo. Ele estava nervoso e sentia
suas mãos suando.
Ela já meio impaciente, mas contente, sem desfazer o
sorriso pergunta logo:
– Anda, me fala logo o que você queria me contar.
Ele não responde, só respira fundo e passa as mãos no
cabelo. Abre a boca como se formulasse alguma coisa, mas a olha para ela e
permanece calado.
– Você quer namorar comigo, não é? – Ela pergunta
sorrindo quase a ponto de fechar os olhos e coloca a mão na cintura. É uma cena
engraçado.
No fundo o artista de rua parece errar uma nota. Eles
não se importam.
Ele cora. E começa a se mexer de um jeito
desengonçado. Passa uma mão no cabelo e tenta dizer alguma coisa, mas acaba
apenas gaguejando e ficando ainda mais rubro. Por fim, se cala, respira fundo e
diz:
– Sim – não ergue o olhar. Fica embaraçado, olhando
para o chão e agora com as mãos na cintura também.
Fez-se silêncio por mais alguns segundos, até que ela
foi na direção dele, abraço-o com delicadeza e disse entre sorrisos e risos:
– Eu amo você.
Já há algum tempo ela estava apaixonada por ele
também. Eram vizinhos de infância e amigos desde sempre. Desde que ela se
lembrava, ele sempre cuidou dela, nos pequenos detalhes e até em coisas grandes
também. Foi para ele que ela contou do seu primeiro beijo, foi para ele que ela
chorou por seu primeiro termino, foi com ele que ela foi ao cinema a primeira
vez e foi ele quem dormiu com ela no hospital quando sua mãe adoeceu. Ela
realmente o amava.
Ele retribui o abraço e ainda sorrindo ela disse:
– Nossa, achei que você não ia dizer nunca!
– Mas, bem, é... Eu ainda não disse – verdade ele
ainda não havia dito. Ele abraçou mais forte, deu-lhe um beijo gentil na
bochecha e pertinho da orelha dela disse baixo:
– Eu amo você.
Ainda abraçada nele, ela balançou a cabeça numa
afirmativa. Desfizeram-se do abraço e de mãos dadas começaram a ir embora. Ele
vestia uma camisa azul e a gola agora estava manchada do batom de sua namorada
e amiga. Ele a havia presenteado com um perfume tempos atrás. Agora a camisa
também tinha o cheiro e a lembrança o fez sorrir. Ao fundo o músico de rua
tocava seu violino, era uma música desconhecida.
Ele balançou a cabeça enquanto iam embora. Pensava em
sua namorada, pensava em tudo que viveram e pensava no que havia acontecido
ali. Deu um beijo no alto da cabeça dela e passou o braço por sua cintura.
Quase no fim da ponte ainda era possível ouvir o violino. E ele pensava “Nossa!
Essa vai ser a nossa música!”.
***
O amor é incrível justamente por sua natureza volátil.
Ele é maleável, mutável e flexível. O amor é como o homem, imprevisível. Ele
pode melhorar ou piorar. Pode aumentar ou diminuir. Consolidar-se ou deixar de
existir com a suavidade de um sussurro. Não se molda em fôrmas, não tem formas,
não se ajusta em fórmulas nem respeita emoções. Não obedece a padrões, não se fundamenta
em conveniências ou circunstâncias. Ele vem e vai. Dificulta ou se faz
entender. Ele nasce ou morre com a naturalidade com que o botão se torna em
flor.
O amor não faz acordos políticos, não faz alianças de
estado, não toma partido; é semelhante à justiça: é cego, imparcial é neutro.
Por isso apesar de abafados pelos historiadores, apesar de não registrado em
nossos livros de história, judeus amaram alemães, jovens paquistanesas amam
israelitas e gregos amaram troianos apesar do fogo e da espada.
Os mesmos lugares onde se começa a amar são para
alguns onde se acaba o amor. Sob o mesmo poste iluminado, ao som da mesma
música casais juntam-se e separam-se, amam-se e deixam-se. Ainda assim, é pela
incerteza do amor que dá, mesmo apesar do medo, vontade de amar.
Alesi
Mendes




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